CINCO DÉCADAS DE SELEÇÃO COM FOCO NA LUCRATIVIDADE


Com um sistema de produção desenvolvido para produzir touros dentro das reais condições da pecuária comercial de corte do Brasil, o pecuarista William Koury é referência na seleção de Nelore.

O Nelore Jandaia tem quase seis décadas de seleção. Quais foram as primeiras ações que nortearam o início do melhoramento genético do rebanho?

Minha iniciação no mundo do melhoramento genético foi a partir dos conselhos dados por um dos grandes especialistas da época, o professor e pecuarista Dr. Fausto Pereira Lima, então coordenador do Programa de Melhoramento Animal do Instituto de Zootecnia, que desenvolvia um trabalho de seleção da raça nelore focado na produção de animais bem adaptados para as diversas regiões do Brasil. Adotamos essa mesma linha de seleção no Nelore Jandaia. Com a introdução da braquiária no Brasil, visando a intensificação da atividade pecuária no Centro-Oeste, optamos na década de 1970 por transferir o rebanho de São Paulo, para o Mato Grosso do Sul, onde as terras eram mais baratas e propícias para a atividade. Na década de 1990 transferimos o rebanho para o Mato Grosso, onde as terras eram mais férteis propiciando um melhor ambiente. Com isso, tivemos experiências importantes que afetaram naturalmente a seleção do rebanho. Em função da pouca habilidade materna e fertilidade que ficaram evidentes nestas mudanças, algumas linhagens que tínhamos no plantel desapareceram na nossa seleção. Coincidentemente isso também foi verificado pelo Dr. Fausto no rebanho do IZ, com as mesmas linhagens. A partir dali, nossos objetivos foram cada vez mais focados em animais férteis, precoces e sadios, que apresentassem desempenho bom a pasto.

Numa época em que a seleção era baseada quase que exclusivamente por peso, o que fez com que o Nelore Jandaia mudasse o rumo?

Se observar a seleção natural no mundo animal, percebemos que apenas os mais fortes e melhores adaptados ao ambiente permanecem vivos e vão repassando essa genética para as gerações seguintes. As fêmeas que aleitam bem e zelam de seus produtos, conseguem mantê-los vivos e passam seus genes para a próxima geração. Assim também deve ser na pecuária bovina. Se você interfere de forma correta na seleção natural da espécie marca um gol, mas se utilizar critérios errados, marca um gol contra, ou seja, o prejuízo para o rebanho pode ser grande. Como exemplo na década de 1990 houve a venda de um dos reprodutores mais caros da história, cuja maior propaganda apresentada na época era o fato de ter tido um super peso ao nascer. Hoje, ele seria eliminado do rebanho justamente por isso. No Nelore Jandaia nunca selecionamos apenas para obter animais pesados, que podem ser exageradamente grandes, pois estes biótipos são extremamente exigentes em nutrição, estão fora da realidade do Brasil. Nós selecionamos é a pasto, como a maioria dos rebanhos de corte são criados. Isso é para que o touro seja selecionado dentro de um ambiente o mais próximo da pecuária comercial. Isso garante uma conexão entre o melhoramento genético do produtor de semente (touro melhorador) e o produtor de gado destinado ao abate. O resultado é mais lucratividade no negócio!

Foi esse conceito que o levou a propor a criação no Brasil de Provas de Ganho em Peso (PGP) a pasto para as raças zebuínas há 20 anos?

Sim. A ideia era justamente identificar touros com bom desempenho a pasto. Na época, não existia esse tipo de prova no mundo, apenas as PGPs mais curtas, em confinamento. O pesquisador Dr. Luiz Alberto Fries estruturou toda a prova que foi implantada pela ABCZ. Posteriormente, a metodologia foi modificada para identificar animais com melhor acabamento. Esses estudos foram feitos no rebanho do Nelore Jandaia. Felizmente, hoje, as PGPs a pasto estão estabilizadas, auxiliam muito na formação de grupos de manejo que propiciam dados de qualidade para os programas de melhoramento genético, hoje consolidados.

De quais outras pesquisas o Nelore Jandaia já participou ou participa?

Nossos animais já foram avaliados por diversos pesquisadores. O rebanho sempre foi utilizado para desenvolver metodologias de avaliações visuais, desde estudo com antigas metodologias como DERAS e PHRAS, até os estudos mais recentes de William Filho e equipe da BrasilcomZ com as metodologias SAM e EPMURAS. Esta linha de seleção promoveu maior velocidade de padronização do rebanho para morfologia mais produtiva e funcional. Atualmente, participamos de uma linha de pesquisa da USP de precocidade sexual em sistemas de produção a pasto, conduzida pelo pesquisador Pietro Barusselli e Claudiney Melo Martins, cujos resultados estão sendo divulgados este ano. O próximo estudo da USP e ANCP que vamos participar está relacionado à seleção de bezerros mais leves ao nascimento. Conseguimos avançar bastante na parte de precocidade sexual das fêmeas e machos, que hoje são desafiadas até 15 meses, mas estamos verificando problemas de parição em decorrência dos bezerros serem grandes. Queremos um bezerro que nasça pequeno e consiga ter uma grande velocidade de ganho de peso após o nascimento. Nosso rebanho também foi utilizado para o desenvolvido dos marcadores moleculares Clarifide desenvolvido pela Zoetis.

Como incorpora esses dados gerados pelos programas de melhoramento e pelas pesquisas no sistema de seleção do Nelore Jandaia?

O melhoramento genético não tem outra finalidade que não seja de aumentar a rentabilidade do pecuarista. Assim, nós utilizamos as avaliações genéticas do programa da ANCP que gera o MGT, índice bioeconômico e as provas intrarebanho Boi com Bula pela BrasilcomZ que identifica os animais mais produtivos no sistema de produção da fazenda. O resultado é evidente, para se ter uma ideia de evolução, a prioridade inicial nossa na década de 1960 era enxertar vacas a pasto que completavam 3 anos. Anos depois, reduzimos essa idade e toda fêmea que não ficasse prenha aos 2 anos era descartada. Hoje, nossa meta é trabalhar com novilhas que enxertam até os 15 meses.

O descarte é a maior ferramenta de seleção de um rebanho, para leite e fertilidade não tem perdão, por isso nossas fêmeas são reconhecidamente boas de leite, como já comprovou um estudo da ANCP.

Como avalia a atual fase do melhoramento genético do Nelore?

O gado nelore de maneira geral evolui a cada ano. Os criadores estão mais conscientes de que o animal deve ser selecionado sem artificialismo. Vejo que estamos no caminho certo. A prova disso é o crescimento de feiras como a ExpoGenética, que expõe apenas animais com avaliação genética e traz para o debate a importância dos programas de melhoramento. Faz parte da nossa trajetória de vida acreditar no futuro e tenho certeza que o nelore tem muito mais à contribuir para a pecuária de corte do país.

E para esta edição do Leilão Nelore Jandaia o que está sendo preparado?

Vamos vender cerca de 300 touros, todos com avaliação genética positiva. São reprodutores de alto desempenho a campo, selecionados para habilidade materna, precocidade sexual, carcaças volumosas e bem acabadas, capazes de produzir os melhores bois de corte e as mais lucrativas matrizes de reposição. O Leilão Nelore Jandaia é uma oportunidade de adquirir exemplares com selo de garantia de resultados positivos.
Esperamos todos lá.